Vicense – Música daqui, pra ver e vestir!

Anotem essa marca, Vicense! “Música daqui, pra ver e vestir” é o mote desse empreendimento maranhense que tem à frente os sócios-proprietários Ronner Gomes, Danielle Reis e Vitor Gomes. Ronner, desde os tempos da faculdade de Publicidade e Propaganda, decidiu criar seu próprio negócio que gerasse satisfação pessoal e renda, e contou com a família (esposa e filho), a ideia tem gerado bons frutos.

Vicense são camisas 100% algodão, com estampas inspiradas na Música e Cultura do Maranhão, distribuídas na loja virtual @usevicense.

“A música sempre fez parte do meu universo. Pois, sou neto de músico, filho de músico e pai de um músico! A ideia de fato surgiu, num processo de resgate do orgulho de nossas raízes e encontrei essa forma de (re)apresentar o que é nosso, aos que estavam com os ouvidos e olhares atentos, somente ao que vinha de outros lugares”, ressalta Ronner em conversa ao Diário de Bordo.

E diz: “Tentamos transformar o que é música, em estampa!”. Na prática, o processo de escolha das estampas vem a partir de um estudo com uma seleção de músicas historicamente fortes e marcantes no cancioneiro do Maranhão. Ronner conta que “é anotado tudo que esteja ao nosso alcance, sobre o compositor, a mensagem inserida naquela canção”. Depois a equipe de arte estampa somente um verso dessa música em texto ou mescla a letra com um desenho que transmite de forma singular aquela determinada mensagem; o que muitas vezes demanda um pouco mais de tempo, pois, há uma necessidade e obrigação de não fugir do mote proposto pelo autor.

Entre os modelos, a T-shirt Engenho de Flores em homenagem a uma das canções mais emblemáticas da música popular maranhense, gravada primeiramente em 1978 no icônico álbum “Bandeira de Aço” do saudoso Papete, e regravada em 1987 pelo próprio autor Josias Sobrinho. E, também, fez sucesso por todo o Brasil na voz da cantora Diana Pequeno entre outras gravações.

Josias Sobrinhos inspirou-se para fazer “Engenho de Flores” durante uma pescaria no rio Maracu (Cajari), quando em um assobio nasceu a melodia. E o enredo veio da lembrança de um engenho chamado Flores (uma localidade do município) em que havia um trabalho extenuante, de sol a sol, e sempre o relógio “apitava” para avisar a hora da labuta para os que ali prestavam seus serviços.

Obs: Na composição do Josias Sobrinho, tem-se a palavra “abalar”, ao invés de “falar”, gravada no álbum “Bandeira de Aço” do Papete.

………………

 

Sobre o contexto o Diário de Bordo reproduz essa preciosa resenha do poeta e cronista Rangel Alves da Costa:

 

Esse Engenho de Flores

Rangel Alves da Costa*

Verdadeiramente, se existe uma música que mexe comigo, me aflora tudo ao mesmo tempo, esta se chama Engenho de Flores. Ao irromper a melodia, o ritmo contagiante, é como se saíssem dos sons zabumbas, chocalhos, violas, caixas, pandeiros e um povo enfeitado de fitas rodando ao redor, cantando o boi, pisando festeiro.
Cantiga bonita, que viaja nas veredas do nosso espírito. Cantiga diferente, com cheiro de gente e de festança popular. Por isso mesmo nem de longe se trata de uma canção romântica, com melodia de cadência apaixonante, ou daquelas páginas musicais, também chamadas de clássicas, inesquecíveis no percurso da vivência. Nada disso. Engenho de Flores é apenas um buquê de sentimentos.
Composta pelo cantor e compositor maranhense Josias Sobrinho e gravada com grande sucesso por Diana Pequeno, é mais raiz, mais gente, mais suor e povo do que propriamente música. Se for possível uma definição, diria que é um bailado popular, à moda da cantoria de boi. E ao ouvir a pessoa também se enfeita todo, coloca o seu colorido de roda, se enfeita de fita e de chapeu, começa a rodar atrás do povo em cantoria.
Contudo, passada a euforia do ritmo, nas entrelinhas da cantiga se encontra um verdadeiro hino à liberdade, uma bandeira do pobre trabalhador sendo libertado da submissão na labuta diária no engenho ou nos latifúndios, uma luz que se acende para chegar um novo dia de canto e alegria.
Um rápido olhar sobre a letra e logo se imagina o povo na sua luta diária para sobreviver, no desvão da vida que faz pingar sangue no lugar do suor. E lá vai o corpo cansado ainda de ontem para a labuta do dia, pois a empreitada chama; a foice, o facão e a enxada chamam. Mas quer dizer muito mais, pois é exatamente para mostrar o momento em que o povo não tem mais que suportar tantas agruras nas mãos dos carrascos empregadores.
E na letra, lá pelos seus escondidos, ouvem-se o barulho da máquina, o apito do trem, as dores nos corpos que se dobram em sacrifício; da ventania que sopra um lamento. E sente-se o cheiro da palha, da palha da cana, da fumaça do engenho, do suor endurecido, da terra queimando, do sol escaldando e esturricando tudo.
E é como se avistasse nas feições desse povo humilde uma junção de sacrifício e fé, de sofrimento pela realidade vivida e religiosidade exacerbada, de inconformismo e alegria por estar sobrevivendo para continuar na luta. E o que seria então o Engenho de Flores cantado na música senão a dor na sublimazia da vida? Ou seria a fronteira entre a dor e a liberdade festeira? Tudo.
Engenho de Flores que poderia também se chamar sacrifício e esperança; Engenho de Flores que poderia também ser denominado o imenso usurpador diante do pequenino que lhe dá valia e enriquecimento; Engenho de Flores que também é verdadeiro Engenho de Flores, com suas riquezas tiradas do sacrifício dos pobres e humildes trabalhadores. E todos os dias, ao apito da alma que não mais se assusta, levantam e vão fiar mais um traçado de sua sina.
Não há que se duvidar de nada disso porque o trem apita, a letra diz; porque chama o povo trabalhador, a letra diz; porque o povo vai virar fumaça e cinza, a letra diz; porque o povo só suporta a ingrata sorte pela fé que possui em São João, Cosme e Damião, como a letra diz. E que bela letra, que síntese melodiosa das fascinantes aflições dos humildes rumo à sua libertação:
“Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Vou pedir pra São João/ Cosme e Damião/ Pra nos ajudar/ Era o apito do Engenho de Flores/ Chamando pra trabalhar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi fortaleza abalar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar/ Vou pedir pra São João/ Cosme e Damião/ Pra nos ajudar/ Era o apito do Engenho de Flores/ Chamando pra trabalhar/ Ê, alumiô, toda terra e mar/ Eu vi Fortaleza falar/ Agora que eu quero ver/ Se couro de gente é pra queimar…”.
Daí, o que se tem é um verdadeiro grito de liberdade de um povo que não se submete mais ao apito do trem chamando para a sina do Engenho de Flores. E em nome desse forjado destino a usurpação, a submissão, a escravidão na plantação e no corte da cana, na juntada, nos afazeres da moenda, nas fornalhas queimando e soltando fumaça com cheiro de gente.
Como diz a letra, nesse tempo de alumiar sobre toda terra e mar não haverá mais o apito do trem do Engenho de Flores chamando para o sacrifício de vidas. E nesse alumiar surgido não haverá mais chicote nem açoite, nem grito nem imposição, muito menos a queimação de couro de gente.
Ou seria o Engenho de Flores uma metáfora? O engenho como um tempo de dor, e flores como um tempo de liberdade. Nada disso importa, se o mais importante é que não haverá mais couro de gente pra queimar.
*Poeta e cronista

 

One Response

  1. Que felicidade a nossa, por sua matéria tão linda quanto ao nosso trabalho. Muito obrigada por acreditar em nossa marca!
    Sucesso a você!!

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DIÁRIO DE BORDO NO JP

Vanessa Serra é jornalista. Ludovicense, filha de rosarienses.

Bacharel em Comunicação Social – habilitação Jornalismo, UFMA; com pós-graduação em Jornalismo Cultural, UFMA.

Atua como colunista cultural, assessora de comunicação, produtora e DJ. Participa da cena cultural do Estado desde meados dos anos 90.

Publica o Diário de Bordo, todas as quintas-feiras, na página 03, JP Turismo – Jornal Pequeno.

É criadora do “Vinil & Poesia” que envolve a realização de feira, saraus e produção fonográfica, tendo lançado a coletânea maranhense em LP Vinil e Poesia – Volume 01, disponível nas plataformas digitais. Projeto original e inovador, vencedor do Prêmio Papete 2020.

Durante a pandemia, criou também o “Alvorada – Paisagens e Memórias Sonoras”, inspirado nas tradições dos folguedos populares e lembranças musicais afetivas. O programa em set 100% vinil, apresentado ao ar livre, acontece nas manhãs de domingo, com transmissões ao vivo pelas redes sociais e Rádio Timbira.

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