DIAS GOMES – Vida, obra e personagens do dramaturgo brasileiro recebe Mostra no Itaú Cultural

A 57ª mostra da série Ocupação da instituição homenageia o dramaturgo apresentando o seu percurso artístico iniciado no teatro aos 15 anos, passando pelo rádio, cinema e televisão. A exposição revela, ainda, o seu processo criativo, solitário e metódico, dedicando espaço não somente ao criador como também a suas criaturas, que se tornaram parte da memória cultural dos brasileiros.    

No dia em que Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) completaria 100 anos, em 19 de outubro (quarta-feira), o Itaú Cultural estica o tapete vermelho no segundo piso de seu prédio e inaugura a Ocupação Dias Gomes – para o público, estará aberta a partir do dia 20. Entre cerca de 170 itens e dividida em oito núcleos, ela revela o dramaturgo por inteiro. A mostra, que permanece em cartaz até 15 de janeiro de 2023, percorre de suas origens, quando nasceu em Salvador, na Bahia, aos caminhos trilhados para se tornar um dos principais romancistas e autores de telenovelas do país. O posto lhe valeu uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).

A pesquisa, concepção, curadoria e realização é da equipe do Itaú Cultural, composta pelos Núcleos de Artes Cênicas, Música e Literatura e de Audiovisual. Em uma parceria da instituição com a Rede Globo e graças aos arquivos de sua família estão ali mostradas cerca de 50 fotos e 10 vídeos com depoimentos de artistas, entrevistas dele próprio, trechos das novelas, textos de pesquisa, de ópera, de peças, roteiros e adaptações – alguns originais –, bilhetes e cartas de amigos, como Jorge Amado e Ferreira Gullar, mensagens de telespectadores sugerindo o destino dos personagens da telenovela do momento, pôsteres, programas e seu indefectível fardão da Academia.

Há também jogos interativos e a possibilidade de tirar fotos de um voo figurado, em uma experiência de ilusão de ótica, com asas semelhantes às de João Gibão, personagem de Saramandaia. O site da instituição dedica um hotsite à mostra em www.itaucultural.org.br/ocupacao-ic. A Itaú Cultural Play exibe O Pagador de Promessas, a partir de 19 de outubro, dentro da prateleira Histórias do cinema brasileiro disponível na plataforma que pode ser acessada em www.itauculturalplay.com.br. Em novembro, será apresentada, na Sala Itaú Cultural, uma série de leituras dramáticas sobre textos teatrais de Dias Gomes (saiba mais abaixo). Ainda, programação educativa, presencial e on-line, e recursos de acessibilidade ampliam o alcance sobre a exposição e seu homenageado.

Mesmo aqueles que sequer haviam nascido na época de novelas da TV como O bem-amadoRoque Santeiro e Saramandaia, trazem em seu DNA a memória de Odorico Paraguaçu (Paulo Grancido, o pai) e seu palavreado absurdamente rebuscado; do barulhinho inconfundível, parecido ao de uma cascavel, que faziam as pulseiras e o relógio de Sinhozinho Malta (Lima Duarte); ou das asas de João Gibão (Juca de Oliveira), entre outros. Intrinsecamente ligados ao seu criador, eles e seus companheiros de diferentes tramas também têm espaço garantido na exposição.

Ocupação

A viagem pelo universo criativo de Dias Gomesinterrompido por um acidente de carro aos 77 anos, começa por sua peça teatral O Pagador de Promessas. Escrita em 1959, estreou no teatro em 1960 sob direção de Flávio Rangel. Em 1962, foi adaptada para o cinema por Anselmo Duarte, tornando-se o único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro, principal prêmio do Festival de Cannes, na França. Também se tornou o primeiro longa-metragem da América do Sul a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1962 – premiação perdida para o francês Les dimanches de Ville d’Avray, de Serge Bourguignon. Em 2015, ficou em nono lugar na lista dos 100 maiores filmes brasileiros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ainda, teve montagens diversas no Brasil e uma versão em minissérie, em 1988. Também foi encenada nos Estados Unidos e na Polônia e traduzida para 10 idiomas.

Na sequência, o visitante passa para o núcleo pessoal de Dias Gomes. Ali se conhece a sua história. Ele perdeu o pai, Plínio Alves Dias Gomes, aos 3 anos, e durante sua infância e juventude teve grande influência da mãe, Alice Ribeiro de Feitas Gomes, amante das óperas, e do único irmão Guilherme, escritor. Tinha 12 anos quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, dando início ao seu percurso na dramaturgia crítica, contestadora e fiel ao retrato da realidade brasileira que sempre o acompanhou. Tamanha fidelidade e teor dos textos, que confrontavam e ridicularizavam o autoritarismo e os costumes sociais da época, muitas vezes lhe valeu a censura de peças e novelas pela ditadura. Foi perseguido. Também perdeu empregos em razão de seu pensamento e atitudes considerados subversivos. Este núcleo ainda passa pela sua história como radialista – incluindo um vídeo dele próprio sobre este período – e pela posse como sexto ocupante da cadeira 21 da ABL, eleito em 1991, sucedendo Adonias Filho.

O autor começou na rádio Pan-Americana, em São Paulo, produzindo adaptações para o Grande Teatro Pan-Americano. Na década de 50, trabalhou nas emissoras cariocas Tupi, Tamoio, Clube do Brasil e Nacional. Nesse período, casou-se com a autora de telenovelas Janete Clair (1925-1983), com quem teve quatro filhos – em 1985, viúvo, se casou com a atriz Bernadete Dias Gomes, com quem teve duas filhas.

Em 1953, foi demitido da rádio Clube do Brasil após uma viagem à União Soviética para um encontro de escritores, onde foi fotografado levando flores para o túmulo de Lenin (1870-1924), em um gesto simbólico que fazia parte da programação do evento. Na mídia brasileira essa entrega foi erroneamente atribuída para Josef Stalin (1878-1963) e a viagem anunciada como tendo sido feita exclusivamente para este fim.

Dali, o trajeto da mostra desemboca no trabalho teatral de Dias Gomes. Esta é uma faceta menos conhecida do autor, em detrimento da popularidade das novelas, embora, para ele, fosse o centro de sua carreira. A sua primeira peça, A comédia dos moralistas, foi escrita quando tinha 15 anos e venceu o Concurso do Serviço Nacional de Teatro, em 1939. O seu ingresso profissional nos palcos, no entanto, foi somente em 1942, com Pé de cabra. Ambos os textos podem ser vistos no espaço expositivo.

Em seguida, o visitante encontra o mundo fantástico de Dias Gomes nas telenovelas – ele ingressou na TV Globo em 1969. A partir desse ponto da mostra se sucedem os núcleos referentes à novela O bem-amado, de 1973 – adaptada do teatro para a televisão, ela entrou para a história da teledramaturgia brasileira por ser a primeira exibida em cores no Brasil e a primeira a ser exportada para diversos países –, Saramandaia, de 1976 com remake em 2013, e Roque Santeiro, 1985. A mostra destaca nesses trechos suas longas pesquisas de contexto e vocabulários que renderam personagens inesquecíveis como Odorico Paraguaçu e o Professor Astromar, o lobisomem de Roque Santeiro, então interpretado por Rui Rezende, entre outros.

Para interação do público com a obra do homenageado, tem, nesse espaço, uma mesa de leitura com uma máquina de escrever e livros para manuseio. A própria máquina de escrever de Dias está exposta em uma vitrine, ao lado de seu relógio, textos, cartas e livros que publicou, como Quando é amanhã, de 1948. Há, também, jogos criados para esta Ocupação, como um caderno para a formação de palavras e significados. Por exemplo, “abacinar”, no sentido de privar de claridade, usada pelo Professor Astromar, e o peculiar vocabulário do próprio bem-amado, Odorico Paraguaçu.

Por fim, um corredor dá a ilusão de entrar em um túnel do tempo em espiral e leva para outro espaço aberto do Itaú Cultural, a Arena. Ali, encontram-se as asas de João Gibão – estilizadas em desenho no chão e em uma parede, para quem não quiser ou puder se deitar. Elas se encaixam no visitante e, por meio de um jogo de espelhos, dão a ilusão de estar voando em um céu azulzinho. Perfeita cena para as famosas fotos selfie.

Programação paralela

No mesmo dia da abertura da Ocupação Dias Gomes, a plataforma de cinema brasileiro Itaú Cultural Play passa a exibir O Pagador de Promessas (96 min, drama, São Paulo, 1962). Considerada um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos, esta tragédia embute uma combinação perfeita entre a dramaturgia política de Dias Gomes, o estilo clássico adotado pelo diretor Anselmo Duarte e a performance de seus atores, em especial, de Leonardo Villar. Atuam junto dele, Glória Menezes, Dionísio Azevedo, Geraldo Del Rey e Norma Bengell.

No filme, Zé do Burro (Villar) e sua mulher Rosa (Glória) vivem em uma pequena propriedade a 42 quilômetros de Salvador. Um dia, o burro de estimação de Zé é atingido por um raio e ele acaba indo a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal. Com o seu restabelecimento, Zé põe-se a cumprir a promessa e doa metade de seu sítio, para depois começar uma caminhada rumo a Salvador, carregando nas costas uma imensa cruz de madeira. Mas a via crucis de Zé se torna mais angustiante ao ver sua mulher se engraçar com o cafetão (Del Rey) e ao encontrar a resistência ferrenha do padre Olavo (Azevedo), que lhe nega a entrada em sua igreja, pela razão de Zé haver feito sua promessa em um terreiro de macumba.

O acesso à plataforma de streaming Itaú Cultural Play é gratuito, e pode ser feito por dispositivos móveis IOS e Android, podendo ser acessada pelo site www.itauculturalplay.com.br.

De 18 a 20 de novembro (sexta-feira a domingo), a Sala Itaú Cultural oferece programação especial, em sinergia com esta Ocupação, composta de três leituras dramáticas. Às 20h do primeiro dia, o coletivo paulistano Teatro do Osso interpreta Meu reino por um cavalo. Trata-se da penúltima peça escrita por Gomes, encenada pela primeira vez em 1989, no Teatro Nelson Rodrigues, com Paulo Goulart, Nicete Bruno e Ângela Leal no elenco. Para o autor, a peça é uma comédia delirante e caótica na qual o protagonista uma espécie de alter ego dele próprio, o escritor Otávio Santarrita, passa por grave crise existencial.

No sábado, mesmo horário, a leitura é realizada pelo Núcleo Experimental – grupo de artistas também de São Paulo, desde 2015 dedicado a explorar novos autores e repensar os clássicos. Eles se debruçam sobre A comédia dos moralistas, primeira peça que Dias Gomes escreveu, aos 15 anos, e lhe valeu o primeiro lugar no Concurso do Serviço Nacional de Teatro em 1939.

Por fim, às 19h do domingo, a leitura dramática é de O Pagador de Promessas, feita pelo grupo Os Inventivos, companhia de teatro de rua da cidade de São Paulo há 12 anos.

 

(Com informações da Assessoria)

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DIÁRIO DE BORDO NO JP

Vanessa Serra é jornalista.
Bacharel em Comunicação Social- Jornalismo com pós-graduação em Jornalismo Cultural na UFMA.

Criadora de conteúdo, roteirista, DJ, colecionadora de discos, produtora artística e fonográfica. Ludovicense, filha de rosarienses. Morou na Cohab, Fé em Deus, Liberdade em São Luís, passou três anos em Codó, e voltou para a capital residindo na Rua Basson (Apeadouro – Bairro de Fátima) e Cohatrac IV. Foi aluna do Colégio Batista.

Gosta de cozinhar. Sempre foi (e pretende continuar sendo) apreciadora da culinária a base de frutos do mar, dos modos e costumes nordestinos; brincante da Cultura Popular e uma assídua frequentadora das mais diversas regiões da Ilha de São Luís e do Maranhão. É autora dos projetos de difusão musical “Vinil & Poesia” e “Alvorada – Paisagens e Memórias Sonoras”.

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